domingo, 14 de fevereiro de 2016

Porque amar e gostar não são a mesma coisa

"É dramática a imatura não distinção entre o amar e o gostar, tão própria da nossa cultura. Posso gostar ou não gostar, gostar mais ou gostar menos. Mas não posso não amar. O gosto encontra-se ao nível do sentimento; o amor ao nível da vontade. Os sentimentos vão e vêm, tantas vezes sem controlo da nossa parte. Mas a vontade tem a ver com a decisão. Nenhum casamento dura uma vida inteira porque marido e mulher gostam um do outro 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Um casamento (qualquer relação) dura porque ambos decidem que dure. Sim, porque se amam, mesmo que haja dias em que seja difícil gostarem um do outro."

P. Miguel Almeida, sj
 
Texto integral aqui.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O amor que merecemos

É domingo de Carnaval, aparecem em bando, terão entre os 15 e os 18 anos, rapazes e raparigas, mascarados de zombies, fantasmas, colegiais, coelhinhas. Não há bem um tema, são só miúdos a brincar ao Carnaval. Para trás fica um casalinho que vem abraçado.
Até que ele, não percebo porquê, larga-a e atira-a contra a parede de um prédio, entre duas montras. Ela magoa-se no braço que embate contra a parede, faz uma careta e massaja-o. Mas quando olha para ele, sorri-lhe e assim que se aproxima dá-lhe uma bofetada. Amor com amor se paga.
Atrás de mim apitam e eu tenho de arrancar com o carro. E se estivesse no meio da rua, faria alguma coisa? Diria a ambos que aquilo não se faz, que amar não é desrespeitar, não é maltratar... É aquilo que vêem em casa? Reproduzem comportamentos vistos nos filmes e nos jogos? Acreditam que aquilo é amor?

Em The Perks of Being a Wallflower, um filme adolescente, uma das personagens diz: "Aceitamos o amor que achamos que merecemos."
E é isso que nos faz, quando temos baixa auto-estima, insegurança (e não só), aceitarmos pessoas que não nos merecem ou aceitarmos porque achamos que não merecemos mais do que aquilo...
Por isso, temos de ensinar os nossos filhos a amar e a respeitar o outro, mas também a amar-se e a respeitar-se. E ensiná-los a identificar as relações doentias, de domínio, de maus tratos, para que não caiam nelas, para que não façam parte do grupo que acha normal a violência no namoro e, por consequência, a violência doméstica.
BW




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

São voltas e voltas sem parar

Mais notícias. Desta vez, são os diretores das escolas que se pronunciam sobre as mais recentes medidas tomadas pelo Ministério da Educação relativamente ao fim dos exames de 6.º ano, já este ano lectivo.
São voltas e voltas sem parar...
Estas são palavras de uma música dos Entre Aspas que me vem à memória quando penso no que temos vivido no ensino em Portugal. Reforma e contra-reforma. Proposta e contra-proposta. Programas versus metas. Depois novos programas e metas. Provas de aferição. A seguir, exames que, pouco tempo depois, deixam de ser exames e passam a ser, de forma politicamente correta, apelidados de Provas Finais. Entretanto, menos exames. Novas provas de aferição. Pelo meio, Associações de Professores em desacordo com propostas do ME; Conselho Nacional de Educação com propostas diferentes das ministeriais. Atrasos generalizados no cumprimento dos programas (leia a notícia aqui). E hoje CE defende exames e provas de aferição. E a seguir?

Esta entediante enumeração resume meia dúzia de anos da nossa educação, em constante mutação e desacordo. Revela a forte instabilidade que a Escola vive em Portugal.

Diz a mesma música que
«São voltas e voltas sem parar
Em sonhos nocturnos
Em sonhos de encantar
Muitos enredos histórias reais.»

São, de facto, mundos reais. Mas não são sonhos. Às vezes parecem pesadelos, estas voltas e voltas sem parar. Sonhos que pouco têm de encantar.

AS

O que estão a fazer esses pés no ar?

Já disse esta frase vezes seguidas: Gosto muito de ir às escolas falar! Seja do Olimpvs.net para os alunos; seja nas conversas com os pais. Gosto. É o meu contacto com a realidade. 
Gosto da forma como me acolhem, das perguntas que me fazem, da curiosidade com que ouvem o que digo. E hoje, no Colégio Monte Maior, em Montemor, não foi excepção. Eles ouvem curiosos e fazem perguntas pertinentes.
O pior é o comportamento.
A entrada no auditório, onde estavam as turmas todas do 5.º, foi feita com barulho. Não foi fácil sentarem-se e depois de sentados, não foi fácil calarem-se.
Estaria a falar há uns dez minutos, sem microfone, quando uma aluna das últimas filas me pergunta se não posso falar mais alto. Já com a garganta a arranhar, respondo-lhe: "Eu já estou a gritar, talvez se os teus colegas se calarem consigas ouvir." 'Ó meu Deus, agora parecia mesmo uma professora', pensei.
O barulho transformou-se em burburinho que foi constante durante os 90 minutos. Suportável, mas não o ideal. 
Há uma aluna que me ajuda a contar uma história da mitologia grega e, quando volto a olhar para ela, está toda deitada na cadeira confortável do auditório, com as pernas traçadas e um pé no ar. Aquele pé está ao nível de um braço no ar, tapando a vista do que está atrás dela. "O que estão a fazer esses pés no ar?", pergunto, já com microfone. A garota baixa os pés, mas mal me viro, torna a espetá-los, marcando a sua posição. 'Não me vou incomodar', penso, 'não sou sua mãe, nem sua professora, estou de passagem.'
"Como é que você faz para ter tanta imaginação?", pergunta uma aluna. "Como é que a senhora ou a autora faz... assim é que devias perguntar", corrijo. 'Eu hoje estou impossível...', digo para os meus botões. "Você já foi ao Brasil?", "A senhora...", insisto com um rapazinho, mas ele nem percebe.
No final, alguns agradecem e saem; outros ficam para os autógrafos. São todos simpáticos e amorosos, brincam, fazem graças, sem serem mal-educados. 'Têm dez anos, ainda têm muito tempo para aprenderem', concedo.
A professora que me acompanha à porta pede desculpa pelo comportamento que, reconhece, não foi o melhor, mas também eles estão desde manhã de actividade em actividade. É a semana cultural e as iniciativas são muitas. 
Penso na escola a tempo inteiro, no cansaço dos miúdos que degenera em pés no ar e impertinência. Se antes de conversar com a docente, estava já preparada para a alertar para a necessidade de trabalhar o comportamento, agora sinto pena dos miúdos que, quando saírem dali, ainda vão para casa fazer TPC. Deixá-los ter os pés no ar... Mas até quando?
BW 


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Liceu ou escola secundária?

E, a pouco e pouco, a palavra "liceu" regressa ao léxico de alguns. Dos que andaram no "liceu" e o esconderam nos anos pós-25 de Abril por uma questão de sobrevivência; dos que desejavam ter andado no "liceu" dos pais, mas andaram na secundária; dos que têm os filhos nos colégios e, em determinada altura da vida escolar dos infantes, os mudam para a escola pública, mas chamam-lhe "liceu" para suavizar a decisão.

Para esses, "liceu" é uma palavra nobre. É uma "metáfora" como chamar "kleenex" aos lenços de papel, responde-me Laurinda Alves num post do FB. Acho que o que queria dizer era "sinónimo". Mas, de facto, é uma metáfora para tudo o que digo no primeiro parágrafo. É uma metáfora para uma vida que já não existe, para uma escola de elites.

No tempo dos liceus, nem todos lá chegavam. As classes mais baixas acabavam nas escolas comerciais e industriais.
Ah, mas hoje também não chegam todos à secundária, dir-me-ão. Chegar, chegam. Não chegam é todos de maneira igual. Uns chegam pelos cursos científico-humanísticos (maioritariamente são os filhos e os netos dos que andaram no "liceu") e outros pelos cursos do ensino artístico, vocacional, profissional e recorrente.
Portanto, as diferenças mantém-se, argumentarão. Sim, é verdade, mas estão todos na mesma escola.

E são todos tratados da mesma maneira? Não, lamento. A escola que devia ser promotora da igualdade e de ascensão social, mas continua a ser o seu contrário e contribui para que o fosso se mantenha entre os meninos do "liceu", os que vão ter as profissões liberais; e os outros, os que vão ser mecânicos, electricistas, programadores.

Quando vou às escolas, observo que os miúdos não se misturam. É fácil identificar, só pela postura e roupa que vestem, os que andam nos cientíco-humanísticos e os outros.
Os professores também me dizem que é fácil distingui-los, os primeiros estão motivados para estudar e, geralmente, comportam-se melhor em sala de aula; os outros nem sequer sabem estar. 
Aliás, os professores também parecem ser de primeira e de segunda, os que leccionam as disciplinas que vão a exame nacional e os outros.
Como as próprias escolas, os antigos "liceus" com melhores resultados nos rankings feitos com base nos resultados dos exames nacionais, e as antigas escolas comerciais e industriais com menos turmas dos científico-humanísticos, logo, com resultados menos bons.

E, então, por que estou eu tão incomodada com o "liceu" se algumas escolas secundárias se comportam como "liceus"? Por todas as razões que enunciei! Porque a escola continua a ser desigual e não devia. Porque se continuarmos a chamar-lhe "liceu" estamos a dizer isso mesmo, que há meninos de bem e miúdos chungas. Porque, tal como os estudantes, todos os professores se devem sentir de primeira, estarem motivados e oferecer um melhor ensino. Porque todos têm direito a uma educação de qualidade, seja em que tipo de ensino for!
BW
PS: Os meus pais e os meus avós andaram no liceu, já eu e os meus filhos frequentámos escolas secundárias, antigos liceus femininos, que também eram diferentes dos masculinos, mas isso fica para outra vez!

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Podem os livros fazer-nos mal?

Quando das convulsões de Abril de 1974, o meu tio materno foi para as Américas, mas não para o Brasil, para os EUA, onde grande parte dos seus cunhados (irmãos e irmãs da minha tia) já se encontravam, fruto do conhecido êxodo açoreano.
Os meus avôs foram aos EUA, visitar a família, às compras, ao médico... O meu avô vinha sempre deslumbrado. O meu avô acompanhava a política norte-americana com o mesmo fervor com que nós acompanhamos o Obama, a Clinton, o Sanders ou mesmo o Trump. O meu avô só tinha coisas boas a dizer da América, do trabalho do filho e da nora, professores universitários, dos netos, em excelentes escolas, da organização da sociedade, dos arranha-céus, do primeiro mundo!
Todo este elogio deixava-nos desconfortáveis. Os netos da América eram melhores do que nós... Era uma festa quando os meus primos chegavam, para passar o Verão na praia, na quinta ou no pinhal. Éramos sete, éramos aventureiros, éramos os maiores! Mas, a verdade, é que quando se iam embora e o meu avô começava a suspirar de saudades e a comparar-nos com eles – "comportem-se como os vossos primos!", mas eles implicavam tanto como nós, só que o avô não via...

De repente, a América parecia-nos uma porcaria! Também à minha mãe a América lhe fazia comichão (talvez pela mesma razão que a nós) e as conversas com o pai terminavam invariavelmente da mesma maneira: "A América é um país de emigrantes que foram expulsos dos seus países, de extremistas religiosos, de loucos."

Lembro-me muitas vezes desta ideia da minha mãe quando leio as notícias dos tiroteios nas escolas e nas universidades, quando vejo a defesa acérrima pelo porte de armas, etc. E lembrei-me quando lia o texto da Isabel Lucas, no PÚBLICO, sobre estudantes universitários norte-americanos que consideram que a literatura lhes pode fazer mal.

É o políticamente correcto em todo o seu esplendor. Não podemos ser expostos ao rapto, à violação, à violência doméstica, ao assassínio, à morte na literatura, mas estas podem entrar-nos pelos olhos adentro nos jornais, nas televisões ou na Internet. Custa-nos mais o rapto de Europa que as migrações forçadas de refugiados.
Não podemos levar um banho de realidade quando somos crianças. Como aqueles pais que compram os livros das histórias onde ninguém morre no fim, onde não há castigos sanguinários, onde todos são muito bons e felizes.

A literatura oral ou escrita – quem não se lembra das histórias de terror contadas numa noite fria num acampamento; ou, o que são os contos de Hans Christian Andersen como o da menina dos fósforos, etc  – serve para isso mesmo, para aprendermos a combater o medo, para compreendermos que o mal existe, para o conseguirmos identificar, para crescermos.

Quando estamos a escrever o Olimpvs.net e seleccionamos as histórias da mitologia ou dos heróis da Grécia Antiga para contarmos aos nossos leitores, por vezes, também temos essa preocupação: ui, vamos impressioná-los com uma coisa horrível... Mas, a vida é mesmo assim, as coisas más existem e estão aí, ao virar da esquina. Como as boas! Porque a literatura é feita de vida e vida é o que queremos para os nossos filhos... e para os tontos dos estudantes americanos, vá...
BW

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Olimpvs.net - na minha antiga escola



Ir às escolas falar aos nossos leitores é sempre um prazer. Ouvir as suas perguntas, sugestões, ver os seus rostos espantados quando lhes fazemos confidências sobre os nomes das personagens da coleção ou outros pormenores, tudo isto traz mais vida à nossa feliz, mas algo solitária, atividade de escrita. Desta vez, tudo isso se repetiu, com sucesso acrescido, na Escola António Bento Franco, sobretudo devido às sessões de sensibilização previamente dinamizadas pela professora bibliotecária.

Mas, para além destes fatores, acresce a esta visita a particularidade desta ter sido uma das escolas onde eu estudei (e que estreei!).
Poucos instantes depois de passar o portão, recordei com nostalgia alguns espaços, a biblioteca, claro, mas também o polivalente, o bar e os seus folhados de salsicha. Recordei colegas, momentos, professores. Vários. Particularmente de Português. Uma professora que ainda tenho a alegria de ver frequentemente, a professora Conceição Jorge, e um professor (agora noutra escola,  certamente) que gostava de fotografia e arte e que, um dia, fez retratos a preto e branco de todos os alunos, o professor Fabião (e que não deve fazer a mínima ideia de que me ficou na memória).

Nas sessões, enquanto falava dos heróis da mitologia e da origem dos Jogos Olímpicos, fui reconhecendo alguns rostos – filhos de antigas colegas e amigas. No fim, foram outros que se vieram apresentar. E, por fim, com um bonito ramo de flores, vejo surgir o meu antigo professor de matemática, atual Diretor da escola, o professor Alfredo Carvalho.

Todas as visitas às escolas são momento de alegria. A esta, somaram-se, rostos, cheiros, sonhos e memórias que, no passado, eu não sabia que tornariam o  meu presente mais feliz.
Ana Soares





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Educar: regras simples para serem cumpridas

À Visão, o psicólogo Javier Urra conta que o que o fez interessar-se pelo tema da educação foi uma cena que presenciou ainda era estudante.
"Um miúdo empurrou a mãe e deixou-a caída no chão. Acabou a tropeçar nela. A mãe levantou a cabeça e perguntou-lhe: 'Magoei-te?'"
Quantas cenas destas já presenciamos? Quantas já protagonizamos?

Às vezes, quando vou para ralhar, começo assim: "Desculpa, mas..." Um dia, enquanto conversava com a psicóloga educacional Maria Dulce Gonçalves, esta interrompeu-me e perguntou-me: "Mas se vai chamar a atenção porque pede desculpa?"

Não podemos confundi-los, se vamos ralhar, não pedimos desculpa, se não por que estamos a ralhar? Porque temos medo de o fazer? Eles vão deixar de nos amar se o fizermos? Não, diz Urra, eles precisam de uma parede, senão vão sempre em frente, sempre em frente e perdem-se...
E nós não queremos que eles se percam, pois não?

Por isso, toca a não ter medo de pegar o touro pelos cornos – atenção! Não estou a chamar animal às crianças, mas sim à forma como temos medo de educar, à forma como não nos queremos incomodar para termos o tal tempo de qualidade, à forma como ignoramos algumas coisas porque as achamos pouco graves – só que elas acumulam-se, acumulam-se e, de repente, não está um touro, mas um elefante na sala...

Aqui fica um excerto da entrevista que fiz a Javier Urra, que veio a Portugal lançar o último livro "O Pequeno Ditador Cresceu", A Esfera dos Livros.

Mas como é que se tem um filho ditador? Os pais demitem-se de serem pais?
Os pais têm medo de ser pais. Têm medo de dizer “não”, de enfrentar os filhos e de os castigar. Há pais que têm de ser adultos. Uma coisa é ser maior e outra é ser adulto. Ao centro chegam muitos pais que são médicos, professores, militares – acostumados a mandar em milhares de pessoas –, um filho dá-lhes um pontapé e dizem apenas “isso não se faz”, em voz baixa e sem convicção.
Porquê?
Porque querem comprar o amor dos filhos. Claro que há filhos que se portam bem e outros que dormem mal, comem mal. Mas aos pais cabe educá-los. Uma coisa é a personalidade, outra coisa é o temperamento e outra é o carácter.
BW

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Olá! Ainda por cá andamos!

A semana passada recebi um email que terminava com um lamento: este blogue estar morto.
Hei! Não está!
Andamos por outros lados, preocupadas com outras coisas, com as cabeças cheias e as mãos parecem não chegar a tudo... Não temos tempo!
Falta-nos o que falta a tantos: tempo.
Tempo para escrever com inspiração.
Tempo para estarmos com quem gostamos.
Tempo para fazermos o que desejamos.
E, esperava-se que com o passar do tempo, ganhassemos tempo! Dias, horas, minutos, em vez de debitarmos coisas como "tempo de qualidade". O que é isso, se não há tempo?!
Vamos tentar regressar!
Obrigada aos que vão passando por cá, à nossa procura!
Beijos,
BW

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A conversar com os pais, a convite da escola

Esta tarde estarei na Escola Básica Eugénio de Andrade, no Porto, para conversar com os pais. O convite é da escola que almeja por um bom relacionamento com as famílias!
BW

sábado, 12 de setembro de 2015

Todos somos refugiados

Quando a Segunda Guerra começou, o meu avô Wong desmantelou as fábricas que tinha em Shanghai e montou-as nas montanhas, no interior, para evitar que fossem bombardeadas. Foi ali que o seu primeiro filho nasceu. Depois de sete dias de trabalho de parto, foi tirado com fórceps por uma curiosa e não correu bem pois todo o seu sistema locomotor ficou afectado. Contei esta história na quinta-feira, durante o encontro Ler no Chiado, em que se falou do Diário de Anne Frank (as conversas são como as cerejas).
Terminada a Guerra Mundial, os chineses enfrentaram a Guerra Civil. O meu avô era apoiante de Chiang Kai Shek e isso custou-lhe as fábricas e as propriedades (custar-lhe-ia mesmo que fosse apoiante de Mao, pois tudo seria nacionalizado). A fuga era a única solução. Mais uma vez, a fábrica foi desmantelada e mandada para Hong Kong e com ela a família e inúmeros funcionários. Conta-se que a família, então já com três filhos, todos rapazes, apanhou o último avião com destino à colónia britânica. Depois disso, Mao mandou fechar as fronteiras.
Foram refugiados. Eram chineses da "mainland" e sempre foram tratados como tal. Isso significa que não tinham os mesmos direitos que os que tinham nacionalidade britânica. Em Hong Kong foram tratados como cidadãos de segunda, eram apátridas. À excepção da benjamim da família, a menina por que tanto ansiavam, e que já nasceu em solo britânico.
Eu digo que são refugiados. O meu pai diz que não são porque chegaram de avião, com dinheiro, compraram prédios, montaram uma fábrica e deram trabalho a muitos. Certo, mas saíram do seu país porque corriam risco de vida. Ficar na China era enfrentar a nacionalização dos seus bens (o que aconteceu), era a possibilidade de irem para campos de reeducação, era a fome, o terror, etc.
Depois de um minor em Economia, o meu pai foi para a Alemanha fazer Engenharia Mecânica na mesma universidade onde o pai tinha estudado no final da década de 1930. Não foi fácil sair porque era apátrida. Chegou à Europa com uma bolsa para estudar e ganas de trabalhar para se manter sem apoios de casa.
Depois do curso concluído, veio para Portugal trabalhar. Não era emigrante, diz-me, porque foi convidado para vir abrir uma fábrica. Também aqui as nossas opiniões divergem. Eu digo que é emigrante, como são os enfermeiros que partem para o Reino Unido com trabalho garantido ou os médicos que seguem para a Austrália com contrato.
Também posso falar do irmão da minha mãe que não viu futuro no 25 de Abril, temeu uma guerra civil, a vitória do PCP e emigrou para os EUA com três filhos pequenos. Aliás, ainda me lembro das arcas, compradas para viajarmos para o Brasil, que não chegaram a ser usadas e foram atafulhadas com lençóis, colchas, cobertores e naftalina, até hoje guardam o nosso enxoval. Também nós, filhos de emigrante, estivemos para emigrar.
Refugiados e emigrantes. A história repete-se.
Há sempre um país em guerra; há sempre uma revolta ou uma revolução; há sempre alguém à procura de uma vida melhor para si e para os seus. E é preciso acreditar na compreensão, na solidariedade e na bondade humana para que todos tenham a oportunidade de recomeçar.
BW

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Professora condenada por culpa dos alunos, pais e ministério

A falta de distanciamento e de discernimento das pessoas que exercem a profissão docente causa-me perplexidade e muita preocupação.

Uma professora foi condenada a seis anos de prisão efectiva e a 18 mil euros de indemnização por agressões e maus tratos a uma turma de crianças de seis anos, do 1.º ano. A professora considerou-se inocente e negou os factos, mas os juízes ouviram as crianças e decidiram a pena, uma das razões foi a arguida não mostrar arrependimento. O PÚBLICO foi ler o acordo.

O que a docente fez às crianças vai marcá-las para a vida. Para a vida, repito. E o tribunal também não tem dúvidas disso: "Acresce que os maus tratos contra alunos muito novos não raras vezes acabam por redundar em insucesso escolar e exclusão social, que urge prevenir."

A escola fica na Amadora e na televisão vejo as mães das crianças, são de origem africana. São os mais pobres, aqueles para os quais queremos que a escola seja uma saída para uma vida melhor. Como, se aos seis anos, levam com uma professora que os agride, que atira com a cabeça dos meninos contra o quadro, se lhes bate com o livro de ponto, com um pau de vassoura e atira cadeiras pelo ar?

E o que leio nas redes sociais?
Pessoas a quem reconheço bom senso dizerem coisas como:
"Isto levava-nos a um enorme debate sobre as condições de trabalho que existem actualmente."
Lamento, mas neste caso não se trata de falta de condições de trabalho. Segundo o acordo, a mulher ter-se-á separado do marido, na mesma altura em que o pai morreu. E estes acontecimento podem mitigar "ligeiramente" a culpa da arguida, refere o tribunal. Portanto, estamos a falar do estado de saúde da docente.

Num grupo de professores no Facebook, onde a notícia foi partilhada, os profissionais insurgem-se contra os pais e contra os alunos. Há uma docente que conta que conhece uma educadora de infância que desistiu da profissão porque era agredida por crianças de 3, 4 e 5 anos. A sério? Então estava na profissão errada.
Por muito desestabilizadas que estejam as crianças – porque podem viver no seio de famílias desequilibradas –, o funcionamento do pré-escolar, as actividades, os trabalhos preparados para elas ajudam-nas a ganhar rotinas, a acalmar, a estabilizar, a ter regras.
Quantos destes meninos – que chegam ao jardim de infância com fome, que não vêem o pai porque está emigrado ou a mãe porque saiu às cinco da manhã para as limpezas, ou que são vítimas de violência doméstica –, é no jardim de infância que encontram estabilidade no sorriso da sua educadora e no acompanhamento da auxiliar?
Ah, mas a escola não tem de substituir a família, dir-me-ão. Eu sei, mas também não tem de dar cabo das crianças só porque estas não têm famílias estruturadas. Tem sim de contribuir para o esbatimento das desigualdades. Estes meninos dão mais trabalho? Dão. Mas se a escola tiver esse trabalho quando eles têm três anos, será mais fácil para as colegas do 1.º ciclo. E se estas fizerem o seu trabalho, estes meninos chegarão com melhores ferramentas ao 2.º ciclo. E se... é um ciclo e, quando chegarem à adolescência será mais difícil que se tornem marginais. É este que deve ser um dos contributos da escola para uma sociedade melhor.

Gosto do docente que diz que a pena é severa porque há quem mate e tenha penas menores. Ou do outro que compara a pena à de Manuel Palito que matou duas mulheres, 25 anos. A da docente é, claramente mais dura, diz. Ou do outro que se insurge porque a justiça foi célere. Mas essa é uma boa notícia! Ou do outro que pede mais autoridade para os professores. Para quê? Para dar cargas de porrada aos meninos a partir dos 3 anos porque chegam mal educados à escola? Para os atirar contra o quadro? Para os espancar com paus de vassoura? Mas não é possível impor a autoridade com palavras? É que eu conheço muitos professores que conseguem ser respeitados em turmas que outros apelidam de difíceis – portanto, a questão não está em ter mais autoridade, mas em saber exercê-la. No fundo, em saber ser professor.

"Não lhes devia bater, como muitas vezes batem certos pais, disso tenho quase a certeza, mas aos pais tudo é permitido, como seja donos de um objeto, e vingam-se muitas vezes nos professores porque já não têm para onde se virar e o professor neste momento é o elo mais fraco, por isso toca a andar... e aproveitar descarregar as mágoas de uma sociedade contaminada, egoísta e sem valores, enfim..."
Mas os professores não vivem nesta "sociedade contaminada, egoísta e sem valores"? Não podem contribuir para que esta tenha mais valores? Os professores sabem mais de educação e de pedagogia do que sabem os pais. Pelo menos aprenderam esses conceitos quando andavam a estudar e não podem aplicar o que aprenderam? E porque os pais batem, o acto da professora já não é tão grave? Mas o pior de tudo não é baterem nos filhos, é vingarem-se nos professores, o elo mais fraco. Pobre professora que, de certeza, por culpa dos pais, porque aqueles lhe azucrinavam a cabeça, batia nas crianças. Pobre professora que era o adulto na sala de aula, com duas dezenas de anos em cada mão as atirava contra a cara desses animais de seis anos. Não por vingança, isso não. Por ser uma pedagoga, claro. Para exercer a sua autoridade, para ensinar.

"Só os piores criminosos são condenados a tqnto tempo e mesmo assim só quando não têm dinheiro para corromper a justiça ou cunhas que os salvem! Agora esta professora, talvez culpada, é das piores criminosas do país! Qualquer dia os professores começam a sofrer chantagens de alunos e pais a dizer que os acusam de agressão e vão para a cadeia se não fizerem o que eles querem. Vai por um bonito caminho isto!"
Vai por um "bonito caminho" enquanto os professores olharem para os alunos e para os pais como olham. Vai por um "bonito caminho" por acharem que os colegas devem ser perdoados pelas circunstâncias. Porque morreu a mãe, porque se divorciou, porque se lhe furou um pneu, porque não sabe dar aulas, porque tem uma unha encravada, porque está com o período, porque, porque...

"Para quando penas idênticas para pais e alunos que insultam, ameaçam e agridem professores? Tenho muitas reservas quanto à forma como estes factos foram comprovados. Se a denuncia foi feita por uma colega, é ainda mais grave. Se achava que a colega não estava bem deveria ter agido de forma positiva. Podiam ter-lhe retirado a turma coloca-la na biblioteca ou nos apoios. Isto não a vai ajudar em nada!"
Há pais que são condenados. Há alunos que são condenados e expulsos do sistema. Quer os pais quer os alunos fazem capa no Correio da Manhã, como esta professora. É só procurar.
Este tipo de argumento da gravidade da colega ter denunciado a outra colega leva-me a questionar: Quantas situações não se passarão dentro das salas de aula que o corpo docente da escola tem conhecimento, mas não denuncia para não prejudicar o colega que, coitado, tem tantos problemas na vida, está deprimido, tem dívidas e não sabe como pagá-las, tem um filho que anda na droga ou um marido que lhe bate... Quantas direcções sabem e nada fazem? Como neste caso, em que o então director do agrupamento ouviu queixas durante cinco meses, cinco, e nada fez. Foi objecto de processo disciplinar.
Mas, para o colega há desculpa, toda a compreensão. Para os pais não. Esses têm de entregar à escola filhos perfeitos e prontos a ensinar. Entregá-los a pessoas que estão doentes mas que serão protegidas pelas outras que, aparentemente, não estão e apoiam a doente. Estas são as pessoas que "agem de forma positiva", esquecendo que a sua função na escola não é proteger colegas descompensados, mas proteger os alunos desses colegas. Porque não há professores sem alunos. Esquecem-se tantas vezes disto... Que existem para ensinar e não para se andarem a proteger uns aos outros e a empurrarem para as bibliotecas e para os apoios as maluquinhas... Ver se eu percebo: um murro na biblioteca tem menos impacto do que um na sala de aula? Já sei! Na biblioteca haverá menos testemunhas, logo, será mais fácil de desmentir. OK.

Há uma docente que vai ao ponto:
"Se ameaçarem de morte um filho nosso, ou se o espancarem devemos ser benevolentes só porque é um colega?"
Mas é logo atirada ao tapete por outra:
"Não! É partir-lhe logo ali a cara, apedrejá-lo, julgá-lo sem dó nem piedade e fazer como nos países pouco civilizados! Julgamento sem possibilidade de defesa e se a professora não assumir uma culpa que não tem e não mostrar arrependimento por não ter assumido uma culpa que não tem ainda temos as chicotadas no poste! Ou então podemos tentar averiguar o que se passou realmente e não fazer disto um estandarte do MEC!!"

Lá está: depois dos alunos mal comportados e dos pais que não sabem educar, faltava o ministério. A culpa é da tutela! Do MEC que não dá condições de trabalho aos professores e, ainda por cima, lança-lhes processos disciplinares quando tem suspeitas de que agiram mal. Maldito ministério...

E regressamos ao princípio: a culpa é de todos. Todos, excepto da professora que o tribunal condenou por dar como provados os crimes. Em nenhum momento a culpa pode ser da professora. Nenhum.
BW

domingo, 28 de junho de 2015

Os professores e a mania da perseguição

A notícia é clara e, aparentemente, não suscita dúvidas: os professores correctores não receberam formação este ano para corrigir os exames. Mais: quase metade desses docentes não tem qualquer formação.
A culpa é dos professores? Não. A culpa é do agora independente Instituto de Avaliação Externa (IAVE).
Mas quem passar pela caixa dos comentários do PÚBLICO ou pelo Facebook os comentários é de quem está sempre de pé atrás, de quem pensa que as notícias se escrevem para denegrir os professores, de quem acha que está a ser perseguido, de quem tem certezas absolutas sobre o seu profissionalismo e que este está a ser posto em causa...
Calma, senhores professores... A culpa de não haver formação não é vossa, a culpa – como disse no parágrafo anterior – é do IAVE.
E agora, sejamos sinceros, acreditam mesmo que como avaliam ao longo do ano, ao longo de todos os anos da vossa carreira, também sabem avaliar os exames nacionais? Não sabem... Não sabem porque não é fácil, se fosse, nem era preciso o IAVE fazer critérios, pois os senhores professores com a vossa experiência não precisariam de critérios. Não é fácil, se fosse os professores que conheço e que estão a corrigir seriamente os exames não me confessavam que este ano está a ser uma "confusão", uma "barraca", uma "bagunça".
Portanto, as notícias não se fazem contra os professores, fazem-se para informar os leitores. É importante que a comunidade educativa saiba o que se passa. É importante que o país conheça em que condições foram feitos estes exames. Neste caso, até se fazem as notícias para as usarem em vossa defesa. Se corrigirem tudo mal, se houver muitos pedidos de revisão, se muitas notas forem alteradas, podem sempre dizer do alto do vosso profissionalismo: a culpa é do IAVE, eu bem queria fazer formação, mas não havia...
Agora não digam, como alguns escrevem, que são tão bons, tão bons, mas tão bons que nem precisam de formação. Aprender até morrer e morrer sem saber, dizia a criada de casa da minha avó ou como diria Sócrates, o filósofo, "Eu só sei que nada sei". Mas digam-no batendo no peito, num acto de contrição e acreditem que o mundo não está todo contra vós. Não está.
BW

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Mas alguém viu o exame de Português com olhos de ver?

Mas o que é que se passou com o exame de Português? E o que é que se passa com as associações de professores de Português? (sim, "associações" no plural, pois vivemos num país em que cada vez mais, em vez de consensos, se criam divisões). E, se esperávamos sensatez nos comentários de uma associação, espantamo-nos quando não nos revemos nas opiniões publicadas nos jornais de nenhuma das duas representantes dos professores de português.
Ora recordemos este exame.
Matéria do 12.º ano: excerto de "Memorial do Convento"   - perguntas de interpretação, que não apelam ao conhecimento da obra, autor ou estilo.
Matéria do 10.º e 11.º: poema de Sophia (tema - poesia contemporânea do 10.º ano) -  perguntas de interpretação, que não apelam ao conhecimento da obra, autor ou estilo.
Gramática e interpretação: um belíssimo texto de Tolentino Mendonça - 50 pontos, dos quais apenas 20 eram para gramática, os restantes eram de interpretação.
O Público ouviu as duas associações de Português. E, mais uma vez, estas divergiram.
A APP crê que as médias vão voltar a baixar porque duas perguntas "exigiam uma grande concentração da parte dos alunos" . Porque exigia concentração?!? (Vá lá, refere-se a falta de objectividade do exame. Mas já lá irei.)
A nova Associação Nacional de Professores de Português considera que a prova foi “bastante acessível e absolutamente exequível para qualquer aluno”. Ok. Mas não comenta a articulação com o programa?
Moral da história: alguém viu o exame de Português com olhos de ver? Ouviram os alunos no final da prova? Sentiram o descrédito que a mesma gerou em torno da disciplina de Português, disciplina já tão mal amada e tratada?
Ninguém é capaz de dizer que esta prova gorou por completo as expectativas dos alunos que estudaram a sério autores e obras referentes aos três anos da disciplina? Ninguém é capaz de dizer que para o exame não era preciso ter estudado os peixes todos do Sermão de Santo António, o estilo queirosiano, "Os Lusíadas", "A Mensagem", a lírica de Camões, a peça "Felizmente Há Luar!"? Sim... estudar estas obras desenvolveu as competências necessárias à análise que se pedia no exame. Mas, por favor, não era precisa conhecer o romantismo, realismo, modernismo!
Os textos foram bem selecionados. Os autores são inquestionáveis. As perguntas interessantes e bem formuladas. Mas, definitivamente, os alunos [que estudaram, note-se] sentiram-se defraudados.

PS - falta referir uma novidade (boa) deste exame: acabaram-se as respostas de gramática cotadas com 0 pontos devido aos erros de ortografia ou acentuação.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Os exames, os exames, os exames

Estou numa repartição pública e vejo o meu amigo Paulo Guinote na Opinião Pública da SIC Notícias. O tema são os exames. Vou sentar-me por baixo da televisão para ouvi-lo, não preciso de o ver! Em vez disso, ouço os telespectadores que ligam.
Uma avó que se queixa do dinheiro que os filhos gastam em explicações. Os netos não têm dificuldades, nem insucesso, "são só calões" – "é o que eu lhes digo!", reforça–, e levanta a questão primordial: o que estão a avaliar estes exames, o dinheiro que os pais gastam em explicações?
De seguida, entra uma senhora que começa por falar do acordo ortográfico. Desligo porque acabo de ser chamada e já não ouço o final. Volto a tomar atenção quando a funcionária vai fazer umas fotocópias e entra um estudante do secundário que não percebe a utilidade dos exames. Pois se ele fez dezenas de testes, ao longo do ano, entregou trabalhos escritos e apresentou outros orais, pois se ele se fartou de trabalhar por que razão tem de ser avaliado pelo que aprendeu em dois ou três anos de ensino em apenas duas horas, pergunta. São duas horas e meia, corrijo mentalmente. O miúdo confessa que, por vezes, tem vontade de chorar ou que chora, já não me recordo porque estou a pagar e a pensar "como o Estado me rouba, meu Deus!".
Atenta, a funcionária que me atende e que ainda não chegou aos 30 anos não resiste: "Diz que chora... deixá-los chegar à universidade para verem como elas doem!"
"Olhe que não, eles são muito pequenos e sentem uma pressão imensa. Eu não a senti na universidade", respondo-lhe, antes de me despedir. Eu sou do tempo da primeira PGA e aquela foi uma palhaçada.
E com isto, não ouço o que diz Guinote, acho que fala do negócio que gira em torno dos exames, não sei se já falou das explicações, mas ouço-o sobre os manuais escolares que se vendem nesta altura e que podem ser mais caros que os manuais, propriamente ditos, aqueles que se compram no início do ano lectivo. Saio que tenho mais uma burocracia para tratar.
Mas a pergunta que me fica é a da avó: o que estão a avaliar estes exames?
Estão a avaliar o que eles aprenderam ao longo de dois ou de três anos ou o que engoliram quais patos para o foie gras – dois ou três anos a ouvirem "olhem que isto pode sair no exame, olhem que isto é matéria de exame, calem-se senão não consigo dar-vos a matéria toda que vai sair no exame..."
Professores concentrados em preparar para o exame, em vez de ensinar, de fundamentar, de experimentar aquilo que se transmite. Professores atrapalhados porque não deram a matéria toda, aquela que vem para o exame. Professores que consideram que as disciplinas de exame são mais importantes do que as outras. Por isso, deviam ter mais horas lectivas, por isso, as outras deviam ser anuladas do currículo.
Pais concentrados no sucesso dos filhos. Pais atrapalhados porque os meninos não sabem tudo, não estão preparados. Pais que consideram que as crianças têm de se aplicar nas disciplinas que vão a exame – como aquela mãe que não estava nada preocupada porque a professora do 1.º ciclo ainda não tinha dado, até Maio, altura dos exames do 4.º ano, nada de Estudo do Meio, mas em contrapartida os meninos estavam mais do que preparados para responderem a Português e a Matemática e deixarem o colégio no topo dos rankings porque o importante é vermos que gastamos bem o nosso dinheiro, numa escola de qualidade, que isso do Estudo do Meio não interessa nada!
Alunos concentrados em assimilar toda a matéria dos dois ou três anos que durou o secundário. Alunos atrapalhados porque ainda não sabem tudo, não conseguem fazer todos os exercícios e "se sai aquela matéria que eu sei menos bem?" Alunos que consideram, como o que ligou para a antena da SIC, que tudo isto é ridículo: como se pode avaliar em duas horas (e meia) o que se aprendeu em vários anos lectivos? Por quê dar tanta importância a uma avaliação externa? E contudo lá estão eles a trabalhar porque a nota do exame é importante e, alguns, choram.
BW


quinta-feira, 4 de junho de 2015

O ensino do latim e do grego

"Sabiam que "Nike", a marca das sapatilhas, em grego se diz "Niquê" e que este é o nome da deusa da Vitória? Em que é que pensaram os senhores que criaram esta marca?"
Esta é uma das perguntas que fazemos, eu e a Ana, quando apresentamos a colecção Olimpvs.net nas escolas.
A mitologia e a cultura greco-romana estão na génese da nossa história, da nossa cultura, da ciência, de tudo o que nos rodeia. É isto que procuramos transmitir e eles, entre os 9 e os 15 anos, ficam deslumbrados – um animal mítico (que está na capa do quarto volume) que dá nome a um órgão que temos no cérebro?! É o hipotálamo.
O grego e o latim vão regressar. Com um ministério liderado por Nuno Crato, outra coisa não seria de esperar. O latim é obrigatório nos currículos norte-americanos e os alunos consideram que este é fundamental para compreenderem a Biologia, as ciências exactas em geral. Não me parece mal. São as nossas origens, como dizia.
As questões que se põem são: existem professores para o Latim e o Grego? Existem pais sensibilizados? E alunos? Não haverá áreas mais relevantes, áreas que foram tiradas às escolas, que são mais pertinentes de serem trabalhadas?
A esta última pergunta, eu diria que sim: primeiro é preciso saber sentá-los; depois, poderemos todos alegrar-nos com o regresso do latim e do grego.
BW

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Parece que a violência no namoro é normal...

No pátio, ele aparece por detrás dela, aperta-lhe o pescoço e pendura-se. A rapariga desequilibra-se, dá um grito de surpresa e de dor. Ele larga-a e ri-se. "'Tás parvo?!", atira-lhe ela. "Estava a gozar...", responde o rapaz, 17 anos, sorrindo, mas rapidamente o rosto se fecha e acrescenta: "Mas eu vi que estavas a olhar para aquele." Ela ainda tem a mão esquerda a massajar o pescoço quando atira a direita contra a cara do rapaz, com força, esbofeteando-o. "És mesmo parvo."
No que resta do intervalo, os dois não se falam, nem se olham. Mas no intervalo seguinte já estão juntos, como se nada se tivesse passado. Ele já lhe fez várias cenas de ciúme, mas ela gosta dele, o que é que se há-de fazer? "Não é por mal, gosta de mim..."
Um em cada quatro jovens acredita que a violência no namoro é normal, revela um inquérito da UMAR. Em Abril, um relatório da PSP revelava que de 2013 para 2014, as queixas por violência no namoro aumentaram 50%, a PSP passou a receber mais de quatro queixas por dia. Porque a violência no namoro existe, o Governo lançou, em Fevereiro, uma campanha chamada "Quem te ama não te agride" e tem uma frase fundamental, que resume tudo o que os miúdos deviam saber sobre o tema: "Se alguém te agride, se alguém te humilha, se alguém te controla, se alguém te isola dos amigos, isso não é amor, é violência."
Confesso que tenho sempre expectativas altas para os mais novos e que ler notícias sobre estudos e observar cenas de violência entre jovens me deixam angustiada. Se no namoro é assim, o que esperam no casamento? Que falta de auto-estima é essa, que permite que se deixem humilhar e maltratar? Que exemplos têm em casa para que se deixem controlar e agredir? A família não educa para o namoro, para as relações sexuais, para o amor? Espera que seja a escola, a televisão, os amigos a fazê-lo?
Deixo outra frase que espelha o que devem ser as relações, da mãe de Miguel Esteves Cardoso, e que está hoje na sua crónica no PÚBLICO:
"Quando um homem adora uma mulher, ele quer que ela seja feliz, e ela não precisa de lutar por nada. Ele coloca tudo a seus pés – e é um homem feliz por fazê-lo.", Diana Esteves Cardoso
É deste amor que pais e filhos devem falar: o do respeito, o da dignidade, o que faz feliz.
BW

terça-feira, 2 de junho de 2015

um alfarrabista dos tempos modernos

O OLX, passe a publicidade, foi sempre na minha cabeça para bicicletas, cadeirinhas e objectos afins. Pouco utilizadora destas plataformas, porque acabo sempre por dar a alguém conhecido o que sobra ou deixa de servir cá em casa, decidi espreitar o negócio dos livros, tentada por duas razões.
A primeira deve-se a uma aluna, numa escola onde eu e a Bárbara fomos falar que ficou tristíssima quando, depois de nos ouvir, percebeu como a coleção Olimpvs.net era fantástica e entusiasmante, e a sua mãe tinha colocado à venda no OLX um dos livros da coleção que lhe tinham oferecido nos anos!
O segundo, quando quis dar a ler à minha filha os velhos livros da minha infância  (Gémeas, Condessa de Ségur, etc.) e fiz contas ao valor da coleção. Claro que no "meu tempo", tal questão de custo não se colocava. Os livros eram requisitados na Biblioteca da F. C. Gulbenkian. Nunca eu tive tantos livros como os meus filhos têm a sorte de ter. Já lhes disse! Mas termino aqui o parêntesis  com a crise dos livros nas bibliotecas modernas. Levei a minha filha à nossa Biblioteca, procurando que ela seguisse os meus conselhos: - "Requisitas, com o teu novo cartão de sócia!". Desilusão. A biblioteca só tem até ao volume 3. Exatamente aquele que ela também já leu. Pergunto, então, a uma amiga se os tem. Diz que não e responde-me: - Agora só compro livros no OLX.
Era a segunda vez que ouvia na mesma frase «livros» e «OLX». Pois lá fiz uma pesquisa. O livro que a mãe da tal leitora Olimpvs colocara à venda já lá não estava. (Ou foi vendido, ou a garota conseguiu ficar com ele e lê-lo.) Quanto à condessa de Ségur e E. Blyton, abundam livros, coleções, uns de ponta dobrada e folhas amarelecidas, outros estimados, outros de 1973, enfim...
Quem diria. Acabei de descobrir um alfarrabista dos tempos modernos!  Falta-lhe o cheiro, toque, pó e magia dos alfarrabistas. Mas os livros, esses, estão lá também!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

No Dia da Criança não lhe dê um tablet

O bebé, talvez tenha um ano, está a dormitar no carrinho, enquanto os pais assistem à missa da Primeira Comunhão do irmão mais velho. Com o barulho conjunto de toda a comunidade a levantar-se, o bebé abre os olhos, ainda estremunhado é presenteado com um smartphone. O bebé agarra-o e começa a brincar.
Onde estão os bonequinhos de pano, aqueles da Cristina Siopa? Rocas não pode ser porque fazem barulho, mas um bonequinho ou um livro maleável para aprender a mudar as páginas, para descobrir os animais... Não, toma lá um smartphone e sossegadito!
Há uns tempos vi um vídeo, daqueles virais, que mostrava uma menina com pouco mais de ano e meio a tentar mudar as páginas de algumas revistas como quem muda de ecrã no tablet. E lá estava ela de dedinho espetado a passar por cima das capas, mas a imagem não mudava.
Como é importante que eles saibam folhear um livro, fazê-lo da direita para a esquerda, compreender como se mudam as páginas, a lógica da leitura. Podem fazê-lo só quando chegarem ao pré-escolar, mas o ideal é que o saibam fazer antes de começarem a ir para o jardim-de-infância.
Como são importantes os livros, as histórias contadas antes de adormecer, as perguntas que eles fazem, os mimos... Lembro-me sempre do livro "Adivinha quanto eu gosto de ti", como é bom, ternurento, calmante depois de um dia de correrias e como ajuda a criar laços entre pais e filhos. Melhor que mil jogos no smartphone ou no tablet!
Ah, mas esta é uma geração diferente, muito mais informada e é isso que queremos para os nossos filhos, que sejam os 'mais qualquer coisa'!
Depois da primeira comunhão há festa e converso com um amigo, professor universitário, que se queixa da impreparação com que chegam ao 5.º ano do mestrado integrado. "Eles têm acesso a tudo mas não sabem ler, interpretar, pensar para além do que lêem. É tudo demasiado imediato e aparentemente fácil. E depois queixam-se 'ih... ó professor, mas está a pedir-nos para nos lembrarmos da matéria que demos no 2.º ano?...' querem que eu lhes faça a papinha toda, não pode ser."
O acesso imediato às novas tecnologias tem este lado negativo – já não há enciclopédias para consultar, livros para ler, existe o motor de busca e se não estiver lá é porque não existe –, mas há outros. E regressamos aos mais pequenos. Um tablet não substitui o manusear os blocos, as peças dos legos, os bonecos da playmobil, e, acima de tudo, não pode substituir a relação dos pais com os filhos.
Dá trabalho estar a brincar com eles? Dá trabalho ensinar as cores? Dá trabalho dizer que isto é um cubo e aquilo uma esfera? Não devia. A relação pais e filhos não deve dar trabalho, mas alegria, orgulho, felicidade.
É mais fácil pô-lo à frente da televisão a ver um programa pedagógico? É mais fácil pô-lo a ver um dvd? É mais fácil passar-lhe o telemóvel para a mão? É. Mas o que se perde na relação entre os pais e os filhos pode ser irrecuperável.
E depois eles chegam à escola completamente desaustinados porque a professora não tem lá um smartphone para cada um, para os entreter. E depois dizem que os meninos sofrem de hiperactividade, que não conseguem estar concentrados, défice de atenção. Sim, é isso mesmo, têm falta de atenção, falta de educação.
BW